A nossa história  
 

 

 

D. João de Cândia

D. João, o chamado Príncipe Negro, nasceu em Cândia, no interior da Ilha do Ceilão (actual Sri Lanka), por volta de 1578. Era filho de D. Filipe - Iama Singa Bandar - rei de Cândia, o qual procurou protecção junto dos portugueses ao ser expulso do seu reino em 1582.

Em 1588, D. João é baptizado em Goa, juntamente com o pai, sendo nomeado em 1591 herdeiro do reino que seu pai deixara à coroa portuguesa, em agradecimento pela protecção e por todos os benefícios desta recebidos. Forçado a abandonar o local devido à instabilidade política que reinava em Cândia, D. João é levado - juntamente com seu primo D. Filipe de Ceitacava - para Colombo e depois para Goa, sempre sob custódia de frades franciscanos; viverá cerca de quinze anos no Colégio dos Reis Magos, em Bardés, perto de Goa. Em 1610, vem para Portugal, a seu pedido e por ordem de Filipe II, ficando inicialmente instalado no convento de São Francisco, em Lisboa, e recebendo uma tença condigna com a sua pessoa. Cerca de 1611, recebe ordens sacras. Posteriormente há notícia de ter residido num palácio na Mouraria.

Por volta de 1625 adquire um terreno em Telheiras que será conhecido por Quinta do Príncipe. Nesse ano funda a Irmandade de Nossa Senhora da Porta do Céu e do Glorioso São João Baptista, de que é o primeiro irmão e juiz. Em 1626, renuncia aos seus direitos aos reinos de Cândia, Cota, Ceitacava e Setecorlas, no Ceilão, recebendo do rei Filipe III mais de 4000 cruzados anuais em pensões eclesiásticas.

Manda erigir em Telheiras uma igreja, e depois um convento, sob a invocação de Nossa Senhora da Porta do Céu, que entrega aos franciscanos, destinando-o à convalescença dos religiosos, devido ao clima ameno do local. Doa ao convento grande número de alfaias preciosas destinadas ao culto litúrgico. Em 1632, ele próprio habita numas casas contíguas à clausura, com a qual tinha comunicação interior, a fim de fazer vida com os religiosos.

Morre em 1642, na casa da Mouraria, tendo sido, a seu pedido, sepultado "na sua hermida de Telheiras". As duas pedras do túmulo original do Príncipe de Cândia encontram-se actualmente no Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa.

 

Ceilão e as origens do Convento

A ilha de Ceilão, a Taprobana da Antiguidade - actual Sri Lanka -, atraiu a atenção de Portugal desde a chegada de Vasco da Gama à Índia. Ponto nevrálgico da navegação entre as duas metades do Índico, o desembarque dos portugueses na ilha dá-se pela primeira vez em 1505, na pessoa de D. Lourenço de Almeida. A primeira missa em terras de Ceilão é celebrada pelo franciscano Frei Vicente.

Os franciscanos tiveram um papel primordial na cristianização da ilha. Os missionários começam o seu trabalho com o encorajamento do rei de Cota, D. João Dharmapal, que se baptiza, juntamente com a sua família, em 1556. Por sua morte, e não tendo herdeiros, doa o reino à coroa portuguesa.

O reino de Cândia - o reino das montanhas - era contudo palco de grande turbulência política. O rei, expulso por adversários, procura refúgio entre os portugueses. Recebendo formação cristã, é baptizado em Goa juntamente com o filho, D. João de Cândia. Em agradecimento pela protecção e por todos os benefícios recebidos, também ele deixa o seu reino à coroa de Portugal. É o filho do rei de Cândia quem, sempre sob protecção dos religiosos franciscanos, vem para Portugal juntamente com D. Filipe de Ceitacava, seu primo, e funda em telheiras o Convento de Nossa Senhora da Porta do Céu.

No começo do século XVII, practicamente todo o Ceilão estava sob a autoridade da coroa portuguesa e a cristianização das povoações ia avançada. Além dos franciscanos, também os jesuítas e os agostinhos tiveram um papel importante na missionação da ilha; possuindo colégios anexos aos conventos, contribuíram para a educação e a rápida propagação da fé cristã no território.

 

Nossa Senhora da Porta do Céu

Trata-se de uma invocação pouco comum, embora já seja conhecida desde os primeiros cristãos. A Virgem é representada com o Menino ao colo, e uma chave na mão, aludindo à sua intercessão como porta de entrada no céu. A imagem com esta invocação terá sido encomendada por D. João de Cândia "a um primoroso escultor, do qual tinha notícia que havia nas Índias de Castela [América espanhola]", segundo Frei Agostinho de Santa Maria. Foi entronizada nesta em camarim e trono de talha dourada. A chave de prata que a Virgem tinha na mão circulava entre as casas dos doentes da zona, sendo em particular depositada nas mãos dos moribundos, para que Nossa Senhora lhes abrisse as portas do céu. Esta devoção ainda hoje se mantém.

A Irmandade de Nossa Senhora da Porta do Céu e do Glorioso São João Baptista foi instituída pelo príncipe de Cândia, seu primeiro juiz, contando entre os seus membros figuras de grande relevo.

 

Convento de Nossa Senhora da Porta do Céu

Em 1625, D. João, Príncipe de Cândia, adquire um terreno em Telheiras, onde edifica um oratório. Por volta de 1632, funda no local um convento com a invocação de Nossa Senhora da Porta do Céu, destinado à convalescença de religiosos franciscanos. Em 1642, o governo do convento é entregue a Frei Manuel da Esperança. Nesse ano, em consequência da morte do Príncipe de Cândia, grande parte dos bens doados ao convento pelo fundador são desviados pelos ministros da época.

Por volta de 1700, o convento é objecto de uma campanha de obras, conseguindo Frei Manuel do Sepulcro recuperar algumas das peças que lhe pertenciam e substituir outras. Em 1708, os frades procedem à trasladação dos ossos de D. João de Cândia para um dos mausoléus em mármore construídos na capela-mor, colocando sobre eles uma inscrição, hoje desaparecida.

Em 1752, o convento conhece um período áureo; D. José I e D. Mariana Vitória eram juízes da Irmandade de Nossa Senhora da Porta do Céu. Em 1755, o presidente da mesa da Irmandade era Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, que ordenou a rápida reconstrução do edifício na sequência do terramoto; as obras ficaram concluídas em 1768.

Em 1833, no quadro da guerra civil, o convento é ocupado pelo exército liberal; os frades abandonam o local, sendo a igreja saqueada e a biblioteca conventual destruída. Em 1834, é declarada a extinção do convento.

Em 1882, o governo decide vender a igreja, então em avançado estado de degradação, mas acaba por entregá-la à Ordem Terceira Franciscana, a instâncias desta.
Em 1910, porém, por ocasião da instauração da República, as dependências conventuais são ocupadas por diversas famílias, sendo instalada na igreja uma serralharia civil.

Em 1940, é dada ordem de restauro da igreja; a campanha de obras tem início em 1941, permitindo a reabertura ao culto. Em 2004, é criada a Paróquia de Nossa Senhora da Porta do Céu. Em 2006 são realizadas obras profundas de restauro, através de financiamento público e privado, as quais deram à igreja uma nova visibilidade. O imóvel foi classificado em 2007.

 

Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Porta do Céu

A igreja é de planta longitudinal simples. A torre sineira, adossada à fachada lateral esquerda, é flanqueada por cunhais de cantaria, nela se destacando o coruchéu bolboso.

Na fachada principal, o portal de moldura dupla de calcário com duplas pilastras toscanas, está rematado por pequeno friso com duas urnas. Na porta, a data de 1696 assinala a conclusão de uma primeira campanha de armas reais, com lápide comemorativa da reconstrução da igreja após o terramoto de 1755, sob patrocínio do Rei e do Marquês de Pombal:

Hoc Mariæ Templum Cœlique Porta vocatur
Hæc terræ a motu præcipitata domus
Candiæ ut hanc olim Princeps exstruxit Ioseph
Cum regnat primus nunc renovata manet
Hocque Oeirensis Comitis tum nomine fulget
Æternæ dignum posteritatis opus
MDCCLXVIII

Em português:

Este templo é de Maria e chama-se a Porta do Céu.
Esta casa, tal como foi antigamente construída
pelo Príncipe de Cândia, foi derruída pelo terremoto.
E agora que reina José Primeiro,
não só está restaurada,
mas é uma obra digna de eterna posteridade,
que fulge com o nome do conde de Oeiras.
1768

Três janelões iluminam o coro; sob o janelão central, um anjo com a chave.

O interior, bem iluminado por janelas altas, é de nave única, com a capela-mor mais estreita, a cobertura em falsas abóbadas de berço. Do coro alto, resta o arco abatido, apoiado em pilastras de cantaria. De ambos os lados da entrada, pias de água benta em calcário vermelho.

Na nave, pilastras e cornijas de mármore rosa e calcário branco. Os púlpitos quadrangulares, um de cada lado, são sóbrios e encimados por um friso em cantaria, que prolonga os ábacos das capelas adjacentes.

O arco triunfal, idêntico ao das capelas laterais, termina num frontão triangular, que será de finais do século XVIII, com bela composição em estuque: dois medalhões encimados pela coroa real, cercados por decoração vegetalista, ladeados por um ramo de carvalho e uma palma. Um dos medalhões emoldura o escudo português; o outro a chave da Porta do Céu.

A capela-mor é presidida pela imagem de Nossa Senhora da Porta do Céu. Dos dois lados da capela-mor, corredores que dão acesso às tribunas e que ligavam a igreja ao convento. A sepultura do Príncipe de Cândia está actualmente assinalada pela pedra funerária que se encontra diante do altar-mor.

Agradecemos à APCD pela produção de um folheto sobre a igreja paroquial de Nossa Senhora da Porta do Céu:
Miniatura da face exterior do folheto Miniatura da face interior do folheto
APCD - Associação Portuguesa de Cultura e Desenvolvimento
Projecto de Estudo e Divulgação do Património
www.apcd.pt

Para mais informações: www.monumentos.pt

 

Cronologia da Paróquia da Nossa Senhora da Porta do Céu

1941: o Dr. Caetano de Macedo obteve das autoridades a restituição da igreja ao culto.
1962: a igreja, com algum restauro recebeu o Santíssimo Sacramento a 25 de Março, festa da Anunciação.
1983: depois de ter sido atendida pelas Irmãs Doroteias ajudadas pelos Padres Franciscanos e por um sacerdote da Companhia de Jesus (Rev. Pe. Alberto), a igreja, fazendo parte da Paróquia do Lumiar (São José Baptista), foi confiada aos Padres Marianos (Rev. Pe. Jorge), a partir de 1 de Setembro.
1990
: o Rev. Pe. José Morais assumiu o cargo da «capelania» de Telheiras.
2003: em 9 de Janeiro faleceu o Rev. Pe. José Morais; em previsão da futura erecção da Paróquia, a igreja foi atendida pelo Rev. Pe. Carlos Azevedo desde 15 de Novembro, mais tarde nomeado Administrador Paroquial.
2004
: a 8 de Abril, Quinta-Feira Santa, foi criada a Paróquia; a 11 de Julho foram nomeados o Pároco e o Vigário Paroquial e a 5 de Setembro deu-se a tomada de posse. Devido ao mau estado da cobertura, a igreja foi fechada ao culto a partir de Novembro.

Igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu, antes da restauração.Igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu, actualmete.
Igreja da Nossa Senhora das Portas do Céu, em avançado estado de deterioração (esquerda), antes do início das obras, e depois de finalizada (direita).